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23.4.08

garrafa ao mar [18/03/08]

[carta enviada à família e aos amigos, por ocasião de ingresso nos respectivos cursos: Júlio, “Escuela de Artes Aplicadas Lino Enéas Spilimbergo, Ciudad de las Artes” e Raquel, na Maestria en Antropología, da Faculdade de Filosofia e Humanidades, da Universidade Nacional de Córdoba (AR)]



Córdoba, 18 de Março de 2008
Destinados aos que dedicam qualquer classe de carinho às nossas vidas:

Agora em que a felicidade nos aparece representada, desejamos compartilhar, orgulhosamente, este que é um grande êxito. Grande, porque dominou nossas aspirações por largos meses; êxito: mais que por sua validade em si, grande e valioso, porque é retorno de um querer absoluto. Por tantas dificuldades, é mister dizer: os clichês são deliciosos, e se o tal do “sonho” é desejado com afinco, é claro que acontece.

Escrevo, assim, por 3 motivos. O primeiro deles, de natureza emocional, sobre o qual me permito declarar, acintosamente, esse orgulho duplo. Para “desfrutar”, como dizem os argentinos, porque assim como é saudável chorar nas dores, é saudável também sorrir – ou gritar esfuziante - pelos logros, apesar do condicionamento da “sociedade dos sacrifícios”, etc. e etc. E ninguém tem sacrificado tanto por nós como vocês.

Sim, estamos felizes, que isso seja registrado, depois de tantos lamentos. De tantas ausências, esforços reais e sobre-humanos, que, entanto sabemos, não cessarão. Pois bem, nessa atmosfera de júbilo, tenho – particularmente – recordado anteriores. Os quais, devo dizer, na compensação das decepções que pude ofertar-lhes (porque fazem parte das eleições de caminhos, tampouco devem agradar sempre e não seriam louváveis se fosse essa a razão) há de se ser justo no que tange a pontuação, se é que se pode computar assim a vida de alguém. O que desejo dizer com isso figura por alguns momentos em que manifestei infelicidade; lembro de dias em que conversamos (eu então em Maracanaú), diálogo entre pai e filha. Pai (e mãe) que é capaz de tudo pela felicidade dessa filha e que deixa muito claro, para quem quer que viva nesse entorno familiar. Que à primeira vista não entendeu bem as palavras dessa filha quando disse de sua tristeza, de sentir-se descontente, desperdiçada, porque não fazia o que lhe enchia a alma.

Pode ser este um pensamento romântico - ou inadvertidamente burguês -, sobretudo quando se goza o que muitos desejariam gozar. Mas vejo – e sinto -, com exatidão, que idealizações alheias reproduzidas em outrem não são mais que isso, por mais profundo que seja o tal do condicionamento social do bom e do ruim. Não adianta, o valor é interno, é o que vigora as veias, dá excelência à coragem, dá invencibilidade ao corpo. Assim seja, hoje, sinto que me faço compreender melhor. Embora o mundo comunique-se em uma língua capital, creio na manutenção dos dialetos; eu acredito nos êxitos por dedicação, se essa vontade for genuína e intransferível. Não há como apoucar-se com méritos inúteis, posto que sempre serão inúteis (ainda que aplaudíveis ao corpo massivo) se não forem concebidos das entranhas deste pobre ser.

Pois bem, o segundo motivo concerne à informação. Porque, ainda que nos comuniquemos, não se pode negar o isolamento criado pela imersão em novo mundo. Explico: ainda que arrisquemos a equivalência de coisas, palavras, comidas e hábitos, é um engano achar que assim se possa traduzir uma vivência. Cada povo, por mais que se encontre nele aspectos universais – seja pelo trespasse cultural, pelo trânsito de fronteiras, pela “natureza humana”, ou similaridades ocasionais -, possui uma estrutura própria. Temos escutado os professores de inglês, desde crianças, diante da tentadora tendência (afortunadamente, nossas crianças agora escutarão professores de espanhol): “Não traduzirás!”. Porque, de fato, cada expressão está impregnada de muitos outros aspectos além dos caracteres. As fronteiras, apesar de termos sentido tão imaginárias na estrada, são reais no que se refere aos códigos, os quais um “intruso” deve adaptar-se, flutuando da inclusão à exclusão permanentemente, vice-versa. É tarefa de todos os dias, é marca indelével, factual e natural, uma vez que não se formou ali, como gente. Enfim, nem as arquiteturas, nem as línguas, nem as pessoas possuem a mesma compleição, há de se entender, sem “traduzi-las”. Por essa razão, essa carta é também informativa, de modo a ilustrar mais aproximadamente o que significam esses êxitos aqui, ou seja, o que realmente significa essa interação acadêmica que obstinadamente investimos. Do que vale estudar na Argentina – ainda que nossa conjuntura política, econômica e social nos tenha induzido a outros destinos, ignorando o pulsar das próprias artérias latino-americanas.

Não necessito falar de Córdoba, porque é sabido seu valor histórico. Apesar da predileção européia a tantos olhos, nossas escolas nos permitiram um mínimo de instrução acerca das Missões Jesuíticas, das colonizações espanholas, das Universidades que, das mais antigas no continente, aqui foram edificadas. Porém, falar da Argentina, que apesar de ser o país sul americano que mais visitamos os brasileiros, não o conhecemos em sua integridade. Porque a Argentina “traduzida” no Brasil é distorcida para com sua realidade, é desleal para com sua grandeza, é injusta para com sua amabilidade. Por vezes, implica uma visão preconceituosa, intumescida por um pensamento perpetuado e repetido, assimilado, subalterno – das massas que reluzem uma arcaica divisão mundial, sem saber que estão com isso cimentando os próprios pés na submissão. Esta vista, não nos interessa. Por graça, ainda estamos por decifrar muitas faces. Por uma leitura personalizada e não induzida. É um processo que deve manter a serenidade, como o corpo do novo amante por descobrir.

E, disso, fazem parte nossas eleições acadêmicas, não são em absoluto casuais, não são expressões isoladas, nem fruto de efemeridades. Fazem parte de um plano, ou alguns planos – individuais e também em conjunto, a abranger o KONIDOMO. Foram encontros felizes de vocações e aptidões com possibilidades. Como se tivesse que ser. Como casal fadado ao casamento. De um lado, um romance com as imagens, de outro, com os verbos. Assim, reviramos as oportunidades, por alegria encontradas. Ambas através da Universidade Nacional de Córdoba: uma na Faculdade de Filosofia e Humanidades, onde cursarei esse Mestrado em Antropologia e outra na Cidade das Artes, pela Escola de Artes Aplicadas Lino Enéas Spilimbergo, onde Júlio cursará fotografia. É essa uma espécie de Faculdade, entretanto, uma modalidade a qual não reconheço no Brasil; a Cidade das Artes é uma Instituição, como o próprio nome sugere, de expansão artística, de modo a habilitar e desenvolver aptidões manifestadas na música, no teatro, na fotografia, no desenho, nas Belas Artes. Como disse, ainda estamos conhecendo, mas de antemão, posso arriscar dizer que é apaixonante, bonito de ver. É um espaço de transcendência, razão pela qual me faz orgulhosa saber que, também pelos rigores no tocante ao ingresso (um mês de curso eliminatório, através de aulas, provas e trabalhos das mais diversas naturezas), Júlio agora fará parte.

O último motivo para meu verbo excessivo – ao que me valha também este deleite de dedilhar os divagares – reside na gratidão que não queremos e não podemos nos furtar. Porque, como sempre dissemos, nada poderíamos sem aqueles que, mais que crer no aparente desajuízo – porque se tende a ver loucura no que não é convencional – possibilitaram efetivamente esses desejos. Nossos mais profundos agradecimentos.

Ainda que por meio cujo tato se faça ausente, os sentimentos encontram matéria pelo caminho, de modo que a física quântica haverá de responder pelas sensações,

O mais terno abraço,

Raquel e Júlio
a

1 Comments:

Blogger Vitor Batista said...

sem fôlego! que carta, meus amados! é muito bom saber dessas consquistas, que são mais que justas pois sempre tiveram a minha confiança e a de muitos que estavam sabendo o que vcs fariam. Há muito mais ainda pra conquistar, sabem disso!
deixo aqui algumas noticias tb, fazendo desse espaço o canal do intercâmbio. tive meu projeto do curso aprovado pela prefeitura, isso quer dizer que começo a dar aulas em junho e vou ate agosto em mais essa descoberta pelo mundo da arte sequencial. bom pro currículo? demais! pois... as aulas serão no centro de formação de artes visuais, no patio de sao pedro. e como tb estou trabalhando numa agencia so terei (ou teria) ferias no ano que vem pra poder visitá-los! estou morando com leozito de taubaté! hj de manha ele me deu a noticia sobre os cursos de vcs, disse que recebeu por orkut! aí eu vim dar uma espiadinha... estou muito feliz por aqui, mas nao pretendo ficar.. pretensões são abstratas, vamos ver no que vai dar! mas quero ir em córdoba tb! vamos ver quando...
abraços fortes de carinho!!
vitor.

11:15 AM  

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