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1.2.08

pálpebras para os ouvidos

Silêncio: apartação. Da rua, o mundo. O mundo entra pela janela. Entra o ônibus, a moto, a buzina, os diálogos, os olhos – ou a câmera -, a sirene, o grito. Grito: meus ouvidos não possuem pálpebras! Ainda que a evolução humana nos leve à condição de monstros - cidades monstros, casas monstros, seres monstros - nossos ouvidos não possuem pálpebras, assim como nossas amígdalas ainda não são unânimes para com sua inexistência. Assim como os apêndices ainda torturam entranhas. Os cisos, dizem, já não importam tanto, light não quer dizer saudável, adoçantes podem engordar e estar cego não é necessariamente uma condição física. Envenenados, entorpecidos, adaptados. Pés nadadeiras de “Water world”. Silêncio?! De tantos decibéis, já não posso assegurar se o reconheço: ainda que usando tampões, quase todas as noites para dormir, escuto um ruído contínuo, que, embora enlouqueça, não é da consciência. Zunido. Reverberação, resquício, rebordosa de sons. Eco, alguma explicação acústica; não se atinge o silêncio – ou o som zero, ou a ausência de sons, ou a paz ilustrada – resiste o incômodo. Outro mundo, es decir, quantas dimensões se sobrepassa com um simples tampão ou um simples processo para apartar-se do mundo provisoriamente - ou para sempre - por este tempo indeterminado de consciência. Porque imediatamente após de sedar a audição, parece o equilíbrio comprometer-se, nas ações mais básicas, como escovar os dentes. Olha-se para o espelho e nele não se reconhece, ainda que a imagem seja tal qual a registrada. Não se reconhece porque não há som, e não se recorda de momentos assim, de pálpebras nos ouvidos, ainda que por um segundo. O incômodo, por esta razão passa a ser o do não ruído – ou do ruído desconhecido- , ou por conseguinte, do não sentido, da não vida, do não mundo. A paz artificial também grita, ao condicionado em uma ambiência de holofotes. O mundo, é tal qual somos, ainda que incomodados, porque também somos incomodados por excelência. Ou somos tal qual o mundo, incômodos tão somente naturais. Não se incomodar é enfermar-se no próprio juízo. E verter-se assim, aparentemente desconexo, perigosamente por si. Entrar em si, caminhar em si, pela desconexão. Mutação. De genes? Evolução categórica é de pensamento e elevação. De si por si, em grupo às vezes. A contrapartida é que já estamos viciados, dependentes, é esse o habitat que desenvolvemos para nossos corpos. E para a mente. Um para o outro. Integrados: comida, casa, condição. Romper é arrancar as amigdalas do hipotálamo. E talvez, tão doutrinados na matéria – para sentir, há de ver, pegar, comer até - ainda não estejamos preparados para tanto. Meu canto é de observação. Entre o barulho e o indefinido.
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